A dentadura do Geléia

Após quinze dias no Mato Grosso, pescando e caçando codornas gigantes (também conhecidas como Emas), Zé preparava o seu retorno Baependi, Minas Gerais. O tempo passado ali nunca mais abandonaria a sua memória.

Tudo pronto e resolvido, carregaram as tralhas no caminhãozinho, engataram o freezer no carro e colocaram o restante na Dorotéia, a D-10 branca do seu Zé. Bem ainda na saída, a caminhoneta começou a engasgar, tanto que não andava dez metros sem dar um pulo. Gancho logo deu o veredicto: carburador entupido!

– Vô dá uma ré nervosa nessa bosta veia aqui que resorve sô Zé! – proferiu Gancho, usando seu arsenal habitual de delicadezas.

Dada a ré nervosa, a Dorotéia não desengasgou. Gancho e Klinger, desceram dos carros e deliberaram até decidirem abrir a caminhoneta e remover a peça para limpeza. Retirado o carburador, limparam-no e deixaram-no em cima de uma pedra para secar. Resolveram então forrar o estômago com alguma coisa já que se aproximava a hora do almoço e a viagem seria longa. Comeram pão com salaminho, que já estava um pouco ensebado e coca-cola quente. Logo depois deste almoço gourmet, decidiram partir. 

Voltando para a Dorotéia, perceberam que o carburador havia desaparecido. Klinger perguntou se alguém havia pegado, mas diante da negativa de todos, começou a antever que teriam problemas.

Gancho avistou um grupo de emas a uns trinta metros e logo falou, sacando o seu trinta e oito da cintura:

– Aposto que foram aquelas fia duma puta lá que comeram o carburador!

– Carma Gancho! Se ocê atira nós pérdi elas pra sempre e aqui no meio do mato nóis não acha outro carburador não! – rebateu Índio, em um tom mais moderado.

Gancho percebeu que Índio tinha razão e guardou a arma.

– Como que vamo sabê qual delas que comeu o negóço? – emendou Klinger.

Eis que o Zé, retirando o matinho da boca, termina de coçar a cabeça e resolve a situação:

– Mais ocês são burro mêmo! O carburador num tá intupido? Então diacho; vai um docês por trás dessas codornona aí, e dá um susto nas bicha e vê qual delas sai correndo e faiando. Na hora que identificá a mardita, manda chumbo!

Depois de mais essa pérola do Zé, acabaram encontrando o carburador que apenas havia caído da pedra e estava encoberto pelo mato. Fizeram a viagem de volta, em quase 5 dias, assim como na ida e chegaram na amada Baependi.

 

***

 

Zé tratou logo de ir à fazenda para encontrar seus capatazes, Geléia e Maverick. Os dois estavam prestes a finalizar a ordenha das vacas. Deu um grito de bom dia e na sequência  perguntou:

– Quem foi que comeu aquelas três galinha marronzinha que eu separei antes da viagem?

– Foi o Nilo xará! Uns dia antes do senhô í eu percebi – falou Maverick, rezando para o Zé acreditar.

– Intendí! Mas esse cachorro é mais inteligente que eu imaginava! Além de me ajudá na caça e entendê tudo o que eu falo, agora ele comi as galinha, corta os pé e a cabeça das bichinha e dexa dentro de um saquinho atrás da laranjeira! – falou Zé, indicando que a pergunta era mais uma confirmação da suspeita.

– Pro senhô vê so Zé! É bão o senhô levá ele no Silvio Santos! Agora se o senhô me dá licença eu preciso capinar um pasto ali – sugeriu Maverick, tentando sair de mansinho.

– Silvio Santos é? Ocês mata as galinha que tem aqui e cada um que faz a sua criação. Não vou ficá dando mío pa bode não!  Agora mudando de assunto, qual docês qué ganhá um extra?

– Se fô di comê pó mandar sô Zé! – emendou Geléia, esquecendo imediatamente de um serviço que  precisava acabar.

– Quí di comê rapaz! Cê só pensa nisso! – vociferou Zé.

– Discurpa sô Zé – rebateu Geléia, coçando a cabeça.

– Tô perguntano quem quer ganhar um dinheirim a mais lá no açougue. É que cheguei hoje do Mato Grosso e na segunda vô descansar um bocado. É só ajudar o Chico a cortá as carne que chegaro, nada demais – explicou Zé.

– Ah xará, eu até ia mas combinei de pescá com o Tião bracinho di tarde – respondeu Maverick.

– Tamém devo í lá sô Zé! – completou Geléia.

– Í lá o carai xará! Semana passada ocê comeu tudinho o queijo podre que eu levei pra pescá! Podi arrumá outa coisa pra fazer – disse Maverick.

Vendo a situação, Zé resolveu lançar um incentivo já prevendo o resultado.

– Dou um quilo de carne e podi escoiê um peixe que eu truxe do Mato Grosso pra quem ficá lá pra mim.

– Eu sô Zé! Eu vou, pó deixá! Tá resorvido! Deixo tudo pronto de madrugada, tiro leite da Perseguida e da Catarina e ponho os queijo pra curá. Amanhã cedim to na porta do açougue – retrucou Geléia, “surpreendendo” seu Zé.

– Bão. Quem sabe você não pega esse dinheirin e compra logo aquela dentadura que tanto quer – emendou Maverick, plantando uma ideia na cabeça do Geléia.  

-*-*-*-

Logo de manhã, Chico mostrou a Geléia qual seria o trabalho e disse que precisava das carnes cortadas até as onze. Nessa hora que os clientes costumavam vir para pegar filé, contra-filé e alcatra fresquinhos para bife. Geléia começou o trabalho e por falta de prática enrolou-se todo; estava mais perdido que surdo em bingo. 

Passava de uma hora da tarde quando acabaram as carnes e Geléia estava verde de fome. 

– Que horas que nóis armoça aqui Chico? – disse Geléia quase chorando.

– Na hora qui dé meu fio! Cê parece que vive pra comê e não cômi pra viver diacho! Agora me ajuda a limpá o balcão pra nóis encerrar aqui – respondeu.

Enquanto Chico limpava o balcão e o freezer, Geléia disse que precisava ir ao banheiro. Sem que Chico visse, ele alcançou uma bexiga de mortadela e uma coca cola de dois litros E trancou-se sem fazer nenhum barulho. Neste mesmo instante, Zé apareceu, falando alto como sempre e dizendo que não conseguiu ficar em casa e que preferia passar a tarde no açougue. Geléia ficou desesperado com a chegada do chefe e com a possibilidade da descoberta do seu pequeno lanche. Mais assustado que velha em canoa e sem ter pra onde correr e nem como esconder os alimentos, resolveu comer a mortadela toda e virar a coca de dois litros goela abaixo. Deu a descarga e saiu do banheiro passando a mão na barriga e com cara de quem estava prestes a vomitar. Zé viu aquela cena e perguntou o que tinha acontecido. Geléia não conseguia falar e deitou-se no chão do açougue apontando o banheiro. Zé entrou e viu o pacote de mortadela e a coca cola ao lado do vaso e entendeu o motivo do acontecido.

Depois de meia hora gemendo e rolando mais que minhoca na brasa, Geléia finalmente levantou e pediu desculpas ao chefe dizendo que aquilo não iria se repetir. Zé, bravo como nunca e coração mole como sempre, mandou o funcionário de volta para a fazenda e ainda deu uns trocados para o comilão pelo dia de trabalho. 

Na terça-feira, Zé chega na fazenda e de longe percebe a euforia de Geléia; cantando alto e sorrindo muito, ele acabava de arrumar os queijos e correu em direção à caminhoneta para falar com o chefe.

– Sô Zé, bligadão pelo dinhelim que o senhô mi deu onti. Eu juntei com uns tloco complei uma dentadula pla mim. Agola dá até pra í no foló da fazenda véia – comentou  mostrando a nova aquisição.

Zé olhou aquilo de perto e segurou forte para não rir. A dentadura não foi feita sob medida, era branca demais e os dentes pareciam de cavalo.  Além de tudo isso, Geléia conseguiu piorar a sua dicção, que já era terrível. O canto da boca já estava ferido, cheio daquela babinha branca esponjosa e a coisa deslocava a cada vez que o dito cujo tentava dizer uma frase completa. 

– É meu fio, podi tê certeza que ocê vai fazer muito sucesso – retrucou Zé, disfarçando a cara de nojo.

– Vai mêmo sô Zé, o Geléia já era mais feio que muié de cego, agora então com essa cara de cachorro com réiva! Hahahahahahah – completou Maverick, caindo na gargalhada.

– Muié de cego é a Susana calça larga aquela sapata mardita qui te largô – retrucou Geléia, para o desespero do amigo.

– Pó pará ocês dois! Vamô caçá um jeito de trabalhar que aqui num é hotel fazenda não. Os dois vão atrás do trator e revira a terra pra roça de mio que eu quero prantá isso essa semana – disse Zé, pondo fim a briga.

Durante toda a semana Geléia sorria e mostrava todo orgulhoso a nova dentição. No sábado, chamou Maverick para ir ao baile da fazenda velha com ele, que o segundo o próprio, seria o começo de uma nova vida; os novos dentes o fariam conquistar alguém especial. Vestiram, cada um dos dois, a melhor roupa e foram, de bicicleta, para o famoso arrasta pé. 

Geléia de botina marrom, calça jeans pega-frango, camisa azul bebê apertada e cabelo lambido de vaca. Ah, e claro, com os dentes novos. Nesse dia, até banho ele tomou e aproveitou para usar todo o perfume de almíscar que há muito guardava.

Maverick já era mais tradicional, calçou um sapato roxo-metalizado, que pegou na estrada quando tombou um caminhoão de um fábrica famosa e calça social preta que ganhara do chefe. A camisa, um amarelo cheguei, igualzinho aquele colete usado pelos guardas de trânsito. Para adornar, um cinto de couro com fivela de rodeio que havia ganhado em um bingo. Passara tanto gel no cabelo que o trem só se mexia em bloco. 

Os dois chegaram por volta de onze horas e logo pediram uma pinga e uma Fanta. Maverick, entendido de bebida, disse para o amigo que era chique misturar pinga com fanta laranja, e que o resultado era chamado no estrangeiro de Rai-fai. Talvez uma referência a bebida conhecida como Hi-fi, mas ninguém sabe ao certo o que ele queria dizer.

– Óia lá Mave, óia aquela cablita lá! – comentou Geléia com a polidez usual.

– Onde? Num tô vendo nada xará! – respondeu Maverick, na mesma língua.

– Aquela loila peituda. Nunca vi muié igual! Ela é mais bonita que lalanja de amostla! Chega nela pla mim?

– Bonita? Cê tá louco? Desse jeito que cê tá falando ela vai pensar que ocê é pai do cebolinha. Tira essa dentadura horríver xará! – sugeriu Maverick.

Juju Cachumba chamava a atenção quando ia e quando voltava. Quando ia, pela bunda proeminente e pelos cabelos muito louros. Quando voltava pela feiúra peculiar. Tinha olhos atraentes, daquele tipo que um atrai o outro. Mas não era a sua vesguice o pior; tinha um papo gigantesco o que lhe conferiu o apelido engraçado.

– Que tira o quê! Cê tá cum inveja! É meu chalme. E ocê  num entende mais de muié! Dexa comigo! Olha e aplende! – emplacou Geléia.

Geléia prendeu a perereca na boca, abriu um sorriso e foi dançando de ladinho no rumo da tal loira. Mais nervoso que anão em comício, começou a dançar perto da moça e a piscar sem desfazer o sorriso. Tirou a donzela para dançar e ficou todo feliz que ela não só aceitou como fez questão de dançar coladinha nele. Lá para o final da música, Maverick percebe uma movimentação estranha na direção do amigo. Chega mais próximo e se assusta com a chegada de um rapaz furioso, afastando as pessoas e gritando alto: – Quem tá dançanu cum a minha muié? 

O rapaz era o Joaozão Holifield; um metro e oitenta e cinco de puro músculo e ignorância. Trabalhava tirando areia no rio da cidade, manualmente, o que moldou nele um tórax de lutador de boxe e fez com que ganhasse o tal apelido. Era careca e não tinha nenhum dente na boca, e bebia pinga com a mesma boca de quem bebe água no deserto.

Maverick tentou adiantar-se ao potencial agressor mas não conseguiu. Ficou a alguns metros da situação e só pôde assistir. 

Todos pararam de dançar, menos Geléia e a loira. Holifield chegou perto do casal, pôs a mão no ombro de Geléia e disse: – Bunito hein?

Geléia respondeu: – Brigadu. Mais num custumo aceitá elogio de macho!

– Cê sabe quem é essa muié? – perguntou Holifield.

– Se ocê continuá atrapaindu é qui eu num vou sabê mêmo diacho!

– Essa muié é minha seu boiola!

– Êpa! Boiola não!  Eu num sabia da muié. Dispôs num tem nada iscrito nela que é sua! 

– Vou mostrar procê onde que tá iscrito que ela é minha…

Holifield pegou na gola da camisa nova do Geléia e encostou ele na parede. A mulher gritava para o namorado deixar de briga mas de nada adiantava. Holifield olhou bem para moça e perguntou:

– Ocê tá defendendo esse safado, então escóie cum quem se qué ficá! Ou eu ou ele.

– Clalo que ela vai escoiê eu. Nem dente ocê tem! – respondeu Geléia, sem pensar e sorrindo para mostrar a dentadura.

Holifield olhou para a moça, olhou para as pessoas, e diante do riso de alguns soltou:

– Se eu num tenho ocê tamém num vai tê!  

E desferiu um soco direto no meio da dentadura do Geléia, partindo-a em três e fazendo com que ela prontamente saltasse da boca do coitado perdendo-se na pista de dança. 

Maverick ajudou o colega a levantar, colocou-o na garupa da bicicleta e foram direto para a fazenda para evitar que apanhassem mais. 

Na segunda-feira, Zé chegou na fazenda e ficou sabendo da história. Após quase molhar as calças de tanto rir, Zé chamou Geléia na sede e disse-lhe que pagaria um tratamento adequado para que o dito cujo colocasse uma dentadura de forma correta. Mas o advertiu para que não voltasse mais no forró da fazenda velha.

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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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