Bidú, o cachorro corno de Baependi

Após o atropelamento do Bidú, ele voltou para a casa totalmente recuperado. A aventura amorosa quase custou-lhe a vida. Bidú ficou traumatizado e seu Zé, sabendo da tristeza do companheiro trouxe a sua amante para morar com eles. Bidú ficou feliz e nem parecia que um carro havia passado por cima do bichinho poucos dias atrás.

Pretinha era uma vira-lata simpática. Uma mistura de raças comuns da região. Ninguém sabia de onde ela veio ou se dormia em algum local específico. Vagava pela vizinhança e sempre era vista próxima a casa do seu Zé o que depois foi esclarecido que era por causa do Bidú.

Casados, sob a Benção do seu Zé, Bidú e Pretinha começaram a viver como marido e mulher. Pretinha, no entanto, sumia todos os dias por um bom tempo. Saía logo a noitinha e voltava  horas depois, fazendo o maior barulho no portão. Logo no primeiro cio, Pretinha ficou prenha e deixou a família toda feliz. A barriga começou a crescer muito e ela logo pariu, trazendo quatro lindos filhotinhos ao mundo. 

Zé, feliz que só vendo para acreditar, chamou todos os amigos e vizinhos para prestigiar os filhotes. As pessoas chegavam e logo torciam o nariz e sem preocupar com os sentimentos do Zé soltavam logo a frase:

– Mas sô Zé, os fioti num parece nada com o Bidú. Esse cachorro é chifrudo! 

Zé, brabo e vermelho de raiva retrucava:

– Chifrudo teu rabo! Pra puta que pariu ocês tudo! 

Zé olhava os cachorrinhos e dizia para todos que eles tinham o olho do Bidú. Mas a verdade é que estava com a pulga atrás da orelha. Zé, aproveitando uma tarde quieta, ligou para o veterinário e perguntou:

– Vinícius, ocê faz DNA de cachorro?

O veterinário respondeu:

– Uai sô Zé, fazê nóis faz, mas é 1000 reais para cada cachorrinho. 

– Mil reais para cada um! Tá louco Vinícius! – respondeu Zé, afastando a ideia do exame. 

Nos meses seguintes, Zé assistia Pretinha saindo de casa e voltando horas depois toda alegrinha. Ele abria o portão para ela e já dava aquele esporro:

– Isso que dá pegar mulher de rua, sabia que não ia dá certo! 

Bidú, seguindo o pai, ia resmungando atrás, como quem completava a bronca. 

Mal Zé vendeu os filhotes e lá vem a Pretinha prenha de novo. Um desses anos,  a cachorrinha fugiu, bem na semana santa , feriado mais aguardado e festejado do ano. Pretinha foi para as barracas de churrasco na esperança de pegar alguma sobra e talvez dividi-la com amor bandido qualquer. Zé, sabendo que ela foi avistada na área das barracas, foi logo buscá-la. Ao achar a dita cuja, Zé pôs a bichinha na coleira e subiu a o morro xingando em alto e bom som:

– Sem vergonha! Quê que ocê já foi fazer na rua? Vai ficar de castigo o resto da semana…

Meses depois, Pretinha deu cria de seis cachorros! Cada um mais diferente ainda do Bidú. Bidú, manteve a fama de corno, e Zé, apesar da raiva, amava cada um dos filhotes como se fosse neto legítimo. Era tanto apego que para dar os cachorrinhos, Denise, a filha mais nova, tinha que esperar o pai dormir e sorrateiramente entregar o filhote para quem quisesse adotá-lo. 

Com o tempo Pretinha se acalmou e diminuiu seu fogo e suas visitas extra-conjugais. Bidu, como bom corno que era, recebeu Pretinha de patas abertas e assim viveram felizes para sempre. 

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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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