Carnaval, confetes e dentaduras

Meu avô adorava carnaval. Em Baependi, esta era uma festa animadíssima no final dos anos setenta, início dos anos oitenta. Com o sô Zé, a cada Fevereiro ele inventava uma fantasia mais maluca do que a anterior. Basta olhar a foto em destaque desta passagem que vou contar. Eram trapos e pedaços de pele desconexos e cuidadosamente desarranjados. Uma festa aos olhos e uma graça que ele não fazia de propósito. Pode-se dizer que seu estilo era intuitivo, único e incopiável ( se é que existe essa palavra.

Neste carnaval em particular, sô Zé estava ainda mais animado. Tomava sua cerveja, de vez em quando uma pinguinha e saía dançando como se um avestruz estivesse pisando em uma chapa quente. Era perna pra cima, perna pro lado e pro outro e tapa na orelha do vizinho, cerveja caindo no chão… se tirasse ele do contexto do carnaval e mantivesse a dança, certamente diriam que estava sendo exorcizado. Era o retrato desengonçado da felicidade.

Olhando para o palanque, onde a banda tocava, Zé e seu amigo-funcionário Elefantinho (na foto), decidiram ir à frente e misturarem-se com a multidão. Chegando no meio do tumulto, Zé tragou uma dose extra de animação, como se tivesse um super poder e iniciou uma apresentação de dar inveja aos capoeiristas, índios que fazem dança da chuva ou macumbeiros que tentam chamar o preto velho. Era uma mistura de tudo isso e muito mais. Entre giros e bicudas e cotoveladas, Zé se descuidou por um segundo e abrindo a boca demais soltou a perereca no meio da galera. A dentadura então misturou com confetes e serpentinas e Zé, sem cerimônia deu mais um giro pegou a bichinha no chão e a devolveu para seu habitat natural. Sorria e mostrava os confetes presos aos dentes falsos e cuspia as serpentinas que teimavam em grudar na sua boca. Quem assistiu o espetáculo diz até hoje que o fato da dentadura sair e voltar tão rápido era parte da dança do Zé e portanto, da sua apresentação carnavalesca. Não duvido nada! 


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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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