Quando o mundo ficou menos alegre…

Espero que quem se deu o trabalho de ler estes contos tenha tido uma leve ideia de quem era meu avô. Óbvio que romantizei algumas cenas, misturei personagens que não existiram e situações que foram amplamente alongadas para dar vida às estórias. Enfim, quis passar o espírito do meu avô. Um espírito crítico-brincalhão-observador, nunca com maldade. Era uma brincadeira e felicidade, personalidade magnética e encantadora. Engraçado naturalmente, personagem de muitas histórias que não puderam entrar nestes contos. 

Meu avô faleceu uma semana antes do meu casamento. Quem assiste a gravação da cerimônia pode pensar que estou indo para forca, como muitos amigos solteiros ainda pensam. A verdade, porém, era que a última imagem que vi do meu avô foi ele deitado no caixão, na sala que nós netos costumávamos celebrar o Natal. A mesma sala em que estávamos quando ele desceu a escada vestido de Papai Noel com o sapato gasto, revelando assim a sua identidade nada secreta. Essa imagem não condizia com a sua personalidade e nem com todas as lembranças boas que eu tenho dele. Fiquei muito impressionado e não consegui, portanto, transformar o momento triste em alegria para o casamento. Não foi fácil, mas a vida segue e o tempo não pára como diz o poeta. 

Penso que se perguntassem para ele como ele queria ser velado, provavelmente ele diria para vestirem ele com aquelas roupas malucas do carnaval, talvez uma peruca, um copo de vinho ao lado e assim ele partiria em paz, fazendo o que sempre fez de melhor: trazer alegria para quem estava ao seu lado. Talvez se assim o tivesse visto não ficaria eu tão abatido e triste, imaginando que para onde quer que ele tenha ido, estaria ele contando as suas histórias, tomando o seu vinho ou dançando o seu amado forró. Talvez ainda, faria o primeiro carnaval no céu, perdendo novamente a sua dentadura, dessa vez em meio às nuvens e dançando de forma desengonçada para que os anjos riem. Quem sabe meu avô estaria sentado em alguma cadeira suspensa, assistindo o vai e vem de todos os seus filhos e netos e torcendo para que tenham na vida a leveza e o humor necessários para suportar os desafios. Assim, sob as benção do criador, meu avô descansaria, quem sabe, pela eternidade… sabendo que fez tão bem aos seus descendentes ao perpetuar neles a sua história. Entre risos e histórias… acredito que é assim que se junta riqueza, posto que rico é o homem cuja vida ecoa nas gerações que o seguem. E o senhor, seu Zé, morreu milionário! 

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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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