Filo(Sofia)

“Para todos aqueles que ousaram tornarem-se pais e mães: o desafio é enorme, mas igualmente grande é a quantidade de amor que transborda dos nossos corações”.

*-*-*

            Chegamos em casa, acabei de buscá-la na creche. Sentamos à mesa e logo preparo um café, quase jantar. Faço um pão com manteiga, que sirvo com um iogurte de baunilha, seu lanchinho favorito. Ela lambe a manteiga, esquecendo-se do pão e bebe meio iogurte. É tarde. No entanto, o tempo bom me convence a levá-la para o parquinho e deixá-la brincar mais. Aproveitemos os dois dígitos positivos enquanto não se tornam negativos – pensei comigo. Separo uma garrafinha de água e pergunto se ela ainda quer comer algo. Sorrio, pois antevejo a resposta. 

       – Quelo chocolate pai. Diz Sofia, sabendo que negarei. 

       Ela tenta, todo dia, na esperança de me convencer que qualquer hora é boa para comer doces. Mal sabe ela que eu concordo. Convenhamos, não existe isso de “hora ruim” para chocolate!  

Minto, digo que não é o momento certo. Digo para irmos brincar que é mais importante. Ela escolhe um amigo para ir com ela e sai na frente desembestada. Peço para que me espere. Ela pára. Com seu metro de altura, consegue ocupar todo o espaço do meu coração.

       – Vou levar o “nicónio” papai. 

       – Não filha, ele vai sujar todo no parquinho. 

       – “but ”eu quelo.  Insiste, misturando Inglês com Português estilo Cebolinha. 

Caminhamos lado a lado para o local, que fica a metros de casa. Muito perto, quase um sonho. Ela vai pulando, rebolando, caindo, chutando as árvores e falando sem parar. Diz coisas que quase nunca fazem sentido. É, certamente, a minha conversa mais divertida do dia. Eu vou carregando o ser mitológico de pelúcia, um unicórnio rosa, sem exagero, o dobro do tamanho dela. 

Paramos de frente para a rua, enquanto ela olha para os lados e diz: 

       – Olha o carro hein papai. Espela… 

       Como se fosse eu quem precisa de conselho. Sim, ela aprendeu. E foi rápido, devo ter falado apenas umas dez mil vezes. Atravessamos e logo eu tento ganhar tempo antes que ela me “escravize” no balanço. Digo para que suba na casinha, no carrinho e nos outros brinquedos que ela pode ir sozinha. 

Fico olhando ao redor, absorvendo ao máximo os últimos raios de sol do outono, que ainda nos esquentam. Em breve, o vento polar virá e soprará por pelo menos seis meses. Vejo duas mães com filhos bem menores que Sofia e torço para que não iniciem um assunto. Evito, sempre que possível, toda a conversa de elevador, parquinho ou fila de qualquer natureza. Quando digo algo, é forçado, curto e sem nenhum interesse genuíno. É triste, mas é a verdade e contra fato não há argumento. Zero orgulho disto, nunca. Luto contra, mas ainda é mais forte que eu. 

       Eufórica, Sofia me chama, bem ao lado da caixa de areia, para que eu a veja brincar com as suas novas “amigas”. Duas formiguinhas, interrompidas enquanto tentavam achar o caminho de casa (talvez). 

Aproximo, fico ao seu lado e me perco em meio a pensamentos que brotam do fundo sei lá de onde:

“O quanto de dificuldade é suficiente para edificar o caráter? Quais situações ela precisará viver para começar a dar valor ao que tem em vez de desejar o que ainda não possui? Como ver a minha filha sofrer e não oferecer ajuda? O quanto desta ajuda eu concedo sem atrapalhar o seu processo de desenvolvimento? O que tudo isso tem a ver com formigas”? 

            – Papai?

            – Oi filha. 

            – A “fumiguinha”gosta de você?

            – É  minha filha? Que legal! 

            Continuo a observá-la, e não me lembro de quando eu tinha essa fascinação pelo simples. Hoje tudo é tão complicado! O que hoje me deslumbra nesta mesma intensidade da “fumiguinha”? Não saberia dizer. Ela brinca, em êxtase. Eu continuo, filosofando comigo mesmo:

            “O amor é imenso! Não há nada comparável a este olhar de amor-dependência, de ingenuidade com que essa criaturinha me olha. Esse sentimento cresce tanto até o ponto que precisarei dar um passo atrás e deixá-la encarar o mundo. Sim, dar um passo atrás é amor. Não quero ser o pai que devora a filha fazendo-a se sentir culpada quando sair de casa ou tornar-se independente. Existe dor na separação, mas a dor é muito maior quando não preparamos o filho para combater o mundo. Ela precisará enfrentá-lo e todos sabemos que nada de bom acontece quando deixamos uma criança sozinha na selva”. Putz, matei uma formiga sem querer. 

            – Pai?

            – Oi filha. 

            – Posso levar a “fumiguinha” pra casa?

            – Não filha. Aqui é a casa dela. 

            – “But ” eu “quelo”!

            Não tenho força nenhuma para negar nada após um “but eu quelo”. Carregamos a nova amiguinha para a nossa casa. A aposta era que o inseto estaria agradecido por estar sendo levado ao um local onde correria menos risco de ser pisoteado. No quintal, todo murado e protegido, a formiga poderia se aventurar de maneira segura. Ela olhava para a formiga, eu olhava para ela. Sofia dançava, corria, sorria, vivia! Eu, mais uma vez, filosofava: 

            “Enquanto ela estiver aqui neste espaço murado, posso aproveitar cada instante, sem medo, sem preocupação. Um dia ela sairá. Caminhará para longe dos meus olhos, bem além destes muros. Lágrimas e gargalhadas, dor e alegria. Não há garantias e nem certezas. Há apenas esperança que o que eu ensinei seja suficiente para que lute com as armas certas. Apenas a esperança que ela persiga mais virtudes que meros prazeres. Há, apenas, o meu coração na beira do abismo a cada vez que o sofrimento bater à sua porta, e sei que irá. Há, apenas, o amor! A força maior de todas, mantendo-me vivo e pronto para vencer tudo isso e no final da minha jornada dizer: – Não foi em vão”! Devia escrever isso! 

            Assim são as minhas visitas ao parquinho com ela. Enquanto Sofia aproveita o presente, eu sofro com o futuro. Será essa a sina dos pais? 

*-*-*

            Anos mais tarde, sigo com as minhas filosofias fora de hora. Ainda não aprendi a me ater ao presente. Minha “filhinha” cresceu; parou de perseguir formigas. Está agora no telefone, sempre que lhe é permitido usar. Tem agora amigas humanas, que pensa serem as melhores pessoas do mundo. Provavelmente, não terá nenhuma delas no seu círculo de amizade em alguns anos. Mas agora, representam tudo para ela!  

            Decido ir para o quintal. Acendo uma fogueira em uma das noites onde o frio ainda é suportável. Eu sou fascinado por fogueiras! Há algo nelas que me conecta com todos os meus ancestrais. Não os da minha família, especificamente. TODOS os meus ancestrais, do meu pai até Adão! Era ao redor de uma fogueira que nos aquecíamos, que comíamos, que nos sentíamos protegido. Não haveria sociedade sem o advento do fogo, eu penso. O fogo espantava as bestas e confortava os homens. Longe dela, o frio, o medo, o isolamento. O desconhecido. Quero uma fogueira para mim, que me proteja das bestas imaginárias do mundo moderno. Da ansiedade, do estresse  e do medo de não ser bom no que faço. Da insegurança. 

            Minha filha vai fazer 13 anos! Tempo cruel. Sinto que estou atrasado para perceber o quanto ele passou. Levou tanta coisa e deixou as marcas indeléveis dos ponteiros que giraram rápido demais para o meu gosto. 

            Arrasto a cadeira tentando decidir qual a melhor distância para o fogo. Gosto de sentir aquele calor que quase queima. O morno não me agrada. É o quente ou o frio.  Lanço algumas toras de madeira no fogo, sem nem mesmo precisar do meu cérebro. Escuto uma voz, quebrando meu momento vácuo.

            – Pai?

            – Oi filha.

            – Acho que descobri para que servem os muros. Sempre que respondo que é para nos proteger e você diz que não. Repete a mesma pergunta toda a hora e não aceita a minha resposta. Coloquei a pergunta no grupo e eu e minhas amigas já achamos a resposta. 

            – Acharam filha? Para que servem os muros?

            – Pra nos fazer pensar no que tem lá fora, ué! 

            – Como assim?

            – Ué, a gente entendeu que aqui do lado de dentro não tem nada legal e que lá fora é mais interessante. Ficamos pensando no que tem do lado de fora – completou, sem mostrar que precisava de mim para dizer se estava correto. 

            Sorrio, chegou a hora tão temida. Essa era a resposta que me provaria que ela finalmente abandonava a infância. Do lado de fora do muro, ela estará longe do meu controle. 

            Aqui começa o fim da minha jornada como protetor em tempo integral. Não havia previsto que seria tão rápido. Quem sou eu para dar conselhos de vida? 

            Ela agora tem quase treze anos e quer tanto descobrir, explorar. Andar para longe da fogueira. Para o interior da floresta.

            Ela sonha, talvez, com aventuras que terminam sempre com um final feliz. Eu sei que preciso equipá-la e prepará-la para os desafios que estão por vir? É, no entanto, o meu trabalho achar o equilíbrio entre protegê-la e prepará-la. Proteger demais impedirá que ela desenvolve habilidades essenciais. Soltá-la precocemente, seria o mesmo que jogá-la aos lobos.  Tênue linha onde o amor dos pais se equilibra. 

            “Porém, se todas as pessoas que admiramos crescem na dificuldade, o que podemos esperar dos nossos filhos se removermos todas as barreiras nos seus caminhos”?

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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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