O Atropelamento do Bidú

A morte do Nilo, cachorro de caça do seu Zé, dilacerou seu coração de manteiga. A única forma de remediar essa dor foi com a chegada de outro cachorro, presente da filha do meio. Bidú, chegou chegando… era da raça fox paulistinha, de cor branca e com algumas manchas marrom-claro. Acabou não crescendo muito. Rebolava o dia todo atrás do Zé que, recém aposentado, passeava diariamente com a “criança” em volta de Igreja. Bidú era tudo que o Zé precisava… os dias de caça às codornas estavam no passado e Bidú ficava alegre com qualquer coisa. Transferia assim, um pouco da sua juventude e inocência ao sô Zé, características que ele havia perdido a muito. 

Um belo dia, sozinho em casa com o Bidú, Zé notou que a casa estava estranhamente quieta. Bidú não havia ainda dado o ar da sua graça e isso não era normal. Desesperado, saiu à rua e viu um reboliço na esquina. Bidú, em busca de uma aventura amorosa, foi atropelado por um carro, que subia o morro levemente acima da velocidade permitida. Zé, mais preocupado que virgem na cadeia, correu para socorrer o “filho”. 

Bidú foi atropelado por uma sobrinha do Zé! E mesmo que ela tenha se desculpado mil vezes e provado que Bidú atravessou na frente do carro, Zé falaria mal dela pelo resto da sua vida. Referia-se à coitada usando pronomes de tratamento como: desgraçada, fia de uma égua e etc. 

Após o acidente, Zé  tentou pegar o Bidú e de pronto levou uma mordida. A dentada acabou rasgando a pele fina do braço do Zé. Àquilo fez um bom bocado de sangue escorrer pelo braço e pela mão. Zé entendeu que Bidú estava ferido e irritado e não tomou ofensa. Sem perceber que sangrava muito, espalhou o sangue no próprio rosto e cabelo, fazendo parecer que era ele o atropelado. As pessoas chegavam assustadas e olhavam seu Zé todo ensanguentado e chorando com o cachorro no colo… não sabiam a quem socorrer; Zé não conseguia falar e todo mundo desesperado chamando a polícia e tentando levar o Zé para o hospital. 

Esclarecida a situação, Bidú foi internado no hospital veterinário para ficar em observação. No dia seguinte, Zé foi ao veterinário para visitar o dito cujo. Bidú, assustado, logo rebolou para o pai e Zé, que com olhos marejados disse:

– E aí meu filho, você está sendo bem tratado?

Bidú, como bom cachorro que era, não respondeu, abanando apenas o rabo e indicando, segundo Zé, que queria ir logo para casa. 

Depois dessa experiência traumática, Zé descobriu que Bidú estava indo para a rua para se encontrar com seu amor. Uma cachorrinha preta vira-lata que ele namorava escondido todo dia quando conseguia fugir de casa. 

Vendo aquela situação, Zé “conversou”com Bidú e acabou adotando a “Pretinha” que agora viveria na casa, em estado matrimonial com Bidú. 

Bidú, feliz igual pinto no lixo, ficaria mais feliz ainda nos próximos meses. Pretinha era foguenta e cuidava bem dele. O grande problema, no entanto, era que Bidú seria apontado por todos como o mais novo cachorro corno da vizinhança. Mas essa é uma história para o próximo conto, até lá. 

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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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