O Dublê do Rambo

Uma bela manhã de Segunda-Feira, dia preferido de quem não trabalha, lá estava Zé preparando os cortes para os clientes de última hora. Pela experiência, que é a mãe dos atalhos, Zé sabia que os bifes de alcatra, contra-filé e filé mignon, vendem mais as onze horas que no resto todo do dia. Os clientes esfomeados concentravam-se naquele horário. Assim, Zé preparava os cortes e separava em pacotes de meio quilo e de um quilo já com os preços e prontos para serem levados. Esperteza que fazia com que o açougue ficasse cheio de onze da manhã até meio-dia. Após ter quase todas as suas melhores carnes vendidas, Zé fechava para almoço e voltava 2 horas depois, para deixar o local limpo e preparar tudo para o dia seguinte.

Rotina cumprida por vários e vários anos e que lhe rendia a quantidade de trabalho e dinheiro que ele precisava para nunca passar necessidade e nem ter que lidar com muito dinheiro. Era o equilíbrio que gostava e talvez que precisava mesmo.

Ao meio dia daquela Segunda, eis que chega no açougue o mecânico mais famoso da cidade, Cobra. Era mais famoso pela mentirada que contava do que pelo seu trabalho mesmo, que era considerado altamente duvidoso. Na última viagem que foi junto com a turma para o Mato Grosso, acabou como motorista de uma caminhonete zero quilômetro, dirigindo para um ricaço da cidade. No caminho, sem perceber, bateu o carter da bicha em uma pedra, o que fez o veículo perder óleo. O dono, sentado confortavelmente no banco do carona, avisou o “mecânico”da luz no painel e este disse que “deve ser mal contato”. Dez quilômetros mais tarde o motor da S-10 novinha pediu arrego, soltou fumaça e interrompeu a viagem deixando todos na mão.

– Bom dia sô Zé, tem alcatra ainda? Disse Cobra, tentando salvar o almoço, 

– Dia… não tem mais nada de bife hoje, só sobrou os rebutaio! – replicou Zé, tentando indicar que estava fechando para o almoço. 

– Rebutaio é para cachorro Zé – devolveu Cobra, indignado. 

– Então, vai querer quantos quilo? – falou Zé, enquanto ria de canto de boca. 

– Ê Zé, assim você perde a amizade. Arruma arguma coisa aí pra mim rapaz, preciso levar uma carne senão a muié me capa os bago! 

– Só se ocê me contar direito essa história de dublê do Rambo. Disseram que oce tava lá na BR quando a carreta de cerveja tombou e ficou falando pra todo mundo que trabalhou com o Rambo e essa mentirada toda… 

– Mentirada nada rapaz! Olha aqui as cicatriz no peito – disse Cobra, enquanto afastava a camisa e mostrava dois arranhões velhos no peito. 

– Só vejo cabelo… se bobear tem ninho de codorna no meio dos peito! Hê! Hê!

– Ah, vai brincando… tomei choque naquele filme do Rambo, entrei na lagoa cheia de sangue-suga e passaram a faca quente nos meu mamilo. Ganhei dinheiro nenhum e quem ficou famoso foi o Stallone. Você não vê a semelhança?

Cobra era filho de italianos e tinha um certo ar de Stallone. Estava longe de uma boa forma mas tinha ombros largos e em uma cidade do interior, onde a imaginação voa mais alto, podia sim passar algumas pessoas para trás com essa conversa. 

No meio da estória, chegou no açougue Gancho, genro do Zé. Para desespero de Cobra. Gancho tinha ido para o Paraguai com ele dias antes. Na viagem, ouviu essa história do Rambo contada várias vezes, desde a saída em Baependi, até cruzarem a fronteira daquele país. 

Cobra fingiu que precisava sair, mas Gancho não deixou. Disse para ele ficar que ia contar essa história direitinho. 

– Ah você ainda tá dizendo que foi dublê do Rambo, neh? Sem vergonha… deixa eu contá esse estória direitinho sô Zé. Lá tô eu dirigindo pro Paraguai e essa bicha louca dizendo pra todo mundo que foi pros Estados Unidu pra trabaiá de garçon. No primeiro dia de trabaio, foi servi uma mesa e era o Rambo lá sentado, comendo sushi. Vê se pode uma merda dessa, Rambo comendo sushi? Começa a mentira aí… se fosse o Rambo mêmo tava comendo carne de vaca, escorrendo sangue pela boca abaixo! E aí ficou falando que o cara que tava com o Rambo, segundo o Cobra era o cafetão do Rambo, achou eles muito parecidos e convidou o boneco aí pra fazer o dubrê dele no filme. Explicou que o tar de Dubrê é os ômi que entra na hora que o bicho pega e o ator fica tomando suco e assistindo. Chegando lá, disse que topou tudo e que era durão e que aprendeu a atirar e que até de bazuca deu tiro. Ficou a viagem inteira falando merda uma atrás da outra, mostrando cicatriz e dizendo que era o verdadeiro Rambo. Na descida em Ponta Porã, um ex-policial que tava indo com nós pegou esse veado pelo braço e disse que is levar ele numa loja de macho. Chegando na loja perguntou se ele era mesmo o dubrê do Rambo e quando ele confirmou o cara mandou fechar a porta e abriu uma parede falsa. Depois que ele oiou direito, no fundo da loja, a parede falsa estava cheia de arma de tudo quanto é tipo. Assim, o ex-puliça mandou traze uma bazuca russa da segunda guerra e disse que queria aprendê a atirá com ela. Cobrinha aqui cagava nas carça de medo, não passava nem aguia no fiofó… tremia iguar bambú verde e teve que confessa que era tudo mentira. No caminho de vorta teve a sorte do policial num vortá com nóis e eu só soube da história por que ele foi me pagá a viagê e me contou. Esse cobra é um boiola mesmo, tudo mentira sô Zé. 

– Que era mentira eu já sabia, não precisava nem contar essa história – respondeu Zé, enquanto entregava meio quilo de coxão duro para o Pretenso Rambo. 

– Isso é tudo inveja da concorrência, Deus sabe a verdade! – retrucou Cobra, alcançando a carne agradecido e depois saindo de mansinho. 

– Bom, vou fechar o açougue que to morto de fome – disse Zé ao Gancho, descendo a porta de ferro, sem trava-la.

– Não quer ouvir a história do Cobra trocando um barco e um motor de 15 cavalo por 3 pedra colorida, achando que era pedra preciosa? – disse Gancho, soltando uma gargalhada. 

– Isso aí não existiu nada sô Zé – esbravejou Cobra enquanto descia para a sua casa. 

– Puta que pariu! Só fartava essa… Bora armoçar lá em casa que ocê me conta mais essa do Cobra – respondeu Zé, descendo lado-a-lado com Gancho em direção a sua casa. 

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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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