O Zé da Ema

Baependi, Minas Gerais. Cidade com pouco mais de 10 mil habitantes, tão pequena que quando alguém viaja todo mundo dá falta da pessoa.

Lá, tudo é normal como em qualquer outra cidade interiorana de Minas. No centro tem a praça e a Igreja; tem uma quadra de esportes com o nome de Ginásio poliesportivo Tancredo Neves, como herança dos anos oitenta; também tem um campo e um time de futebol, que um dia foi recheado de craques, mas que agora nem bola tem mais; e fruto do tédio que vez ou outra assola as cidades do interior, Baependi abriga um pinguço oficial, ou mais de um ( geralmente muitos mais ).

Cada cidadezinha mineira também precisa do seu próprio empresário ladrão; àquele que ficou rico do nada, ganhou na loteria ou como dizem as más línguas, fez pacto com o capeta ou chutou a santa, ninguém sabe dizer ao certo. Assim é Baependi, assim são as mais de 800 cidades mineiras!

Tudo isso você acha em vários lugares meu caro leitor, mas o seu Zé, só ali é que se vê! Ele que trabalha no seu humilde “Açougue Dimas” e por lá, esbanja alegria angariando assim muitos e muitos clientes. Estes, compram ali mais pelas histórias que ele jura serem reais do que pela carne que é igualzinha a de todos os outros açougues da cidade.

Desde que sua mulher faleceu, Zé nutria um forte desejo de conhecer o Mato Grosso. Apaixonado por caça e pesca, tinha esse sonho antigo, que vinha desde antes da divisão daquele estado, em 1977. De origem pobre, achava que não tinha dinheiro necessário para empreender tal viagem, apesar de viver razoavelmente bem. Contentava-se com a pesca dos lambaris e com a caça às codornas ao redor da chácara, herdada dos pais. Para quem vive uma vida simples, pequena – aos olhos do mundo, qualquer sonho é grande demais.

Zé ainda mantinha o pedaço de terra, no qual cultivava seus poucos bois e tirava o leite necessário para a manutenção do minifúndio. Todo fim de semana ele carregava a sua espingarda Winchester 44, também herdada do pai e trazia junto o Nilo, um cachorro vira-latas preto, treinado na “levantada” das codornas. Ao final do dia, aparecia na casinha pobre que chamava de “a sede da fazenda”, abarrotado de aves abatidas e penduradas no casaco de caçador; e lá ia andando todo orgulhoso sob o olhar dos dois camaradas que ali viviam. Geléia e Maverick, invejavam o chefe e pediam sempre para que ele ensinasse-lhes à “arte” da caça às codornas. Mas Zé alegava que eles eram tão burros que era perigoso um matar o outro na primeira empreitada.

– Ê sô Zé, o senhô num faia! Quantas que fôro ôji? – gritou Geléia, orgulhoso do chefe e calculando se sobraria alguma ave para a sua janta.

– Vinte e três só! Dia fraco! Acho que até matei uma a mais, mas nem corri atrás porque vinte e quatro dá azar, num é? – respondeu Zé, enquanto apoiava as bichinhas na mureta da casa.

– Se o senhô quisé xará, nóis ajuda a dipenar as bicha – emendou Maverick, enquanto matava o restinho da mardita cachaça.

– Na verdade, cês podi ficar com elas. Reparte pros dois e senta o pau que pra essa semana eu separei uma carne boa na cidade e tô com vontade fazer um trem diferente quando chegá em casa do açougue – disse Zé, arrancando um sorriso guloso de Geléia.

Os dois capatazes só sabiam correr atrás das pobres codornas e roubar seus ovinhos. Na posse do produtos furtados, gostavam de cozinha-los para tirar o gosto do “dedin” de pinga de cada dia. Eles moravam, cada um na sua casinha, construída de pau-a-pique nos arredores da “sede”. Geléia era um moreno claro alto e gordo, pode-se dizer que flertava com a obesidade mórbida. Fácil fácil pesava uns 140 quilos. Cabelo curto e bem grosso, beiçudo e com cara de bolacha, era mais feio que bater em mãe. Tinha só dois dentes, um para doer e o outro para estourar jabuticaba. Nunca se casou; não tanto pela sua beleza “exótica”, mas por que mulher nenhuma havia aguentado seu peculiar senso de higiene. Banho era um luxo para ele; achava que água demais “tira a proteção do couro”. Dizia também que não lavava as panelas por que o gosto da comida de ontem reforçava o tempero da de hoje. Prática que ele já vinha repetindo e aperfeiçoando desde os vinte e cinco anos, quando foi “convidado” pelo pai a sair de casa e decidiu morar sozinho. Segurar uma das suas panelas era tarefa difícil, já que elas escorriam pela mão devido ao revestimento oleoso, por assim dizer.

Já Maverick era um branco-rosa e meio alto também, não tanto quanto o Geléia. Tinha já seus cabelos grisalhos e lisos e um bigode do mesmo tom, que insistia em dizer que era sinônimo de masculinidade. Foi casado, mas a mulher o traiu com outra e ele jurou que nunca mais firmaria compromisso; perdeu a confiança em todas as mulheres. Para vê-lo saindo do sério, bastava dizer que Suzana “calça larga”, sua ex-esposa, preferiu uma mulher à ele, por que o sujeito não deu a devida “assistência”. Dito isto, ele sacava o canivete suíço, que não cortava nem água e partia para cima de quem quer que fosse. Com o rosto mais vermelho que bunda de babuíno, jurava o sujeito de morte e depois bebia para aliviar a tristeza. Nesta hora, preferia conhaque puro e enchia a boca da bebida para depois soprá-la na lenha do fogão, avivando o fogo e as memórias e chorando de saudade da desgraçada.

-*-*-*-

De volta ao dia-a-dia do açougue, Zé falava do Mato Grosso a todo o momento. Era tanto que os seus seis filhos, três homens e três mulheres, reuniram um dinheirinho e formaram uma pequena turma de interessados em realizar o sonho do dito cujo. Orquestraram a viagem, combinaram as datas e reuniram mais alguns amigos. Traçaram um plano e decidiram comunicá-lo assim que possível. No dia seguinte, Zé voltava à pé do trabalho e carregava sua inseparável garrafa azul de café em uma mão e na outra um quilo de alcatra cortado em bifes. Avistou de longe a varanda da sua casa, que ficava ao lado da igreja da cidade e percebeu o rebuliço. Pensou com ele: “mas que diacho, só por que hoje escolhi o alcatra pro bife. Esse povo tá de brincadeira”. Chegando em casa, percebeu seus filhos reunidos e sorridentes e estranhou. Olhou no rosto de todos e ninguém se atrevia a antecipar nada. Até que o filho mais velho tomou a dianteira e abraçando o pai disse:

– Pai, entre que temos um surpresa pro senhor. Vamos para a sala de jantar.

– Mas que diacho, oceis num me avisa que vem. Não tem carne pra esse povo tudo não! – respondeu Zé, olhando feio pra turma.

Chegando na sala, Zé vê dois dos seus sobrinhos, mais um amigo da família e dois dos genros. Todos sorrindo, enigmaticamente. Com cuidado, depositou a garrafa de café na mesa junto com o saco de carne. Olhou para cada um e mandou:

– Que raio que ceis tão aprontando? Ceis sabe que eu não gosto de surpresa. Ou fala logo ou racha fora daqui que eu tô morto de fome e não tem comida pro oceis tudo não. Se oceis quiser comer vai no tio Pedro e pega uma quentinha – completou Zé chamando Cida, a senhora que vez ou outra o ajudava com a casa.

– Carma sô Zé. Nós tamo aqui pra dizer um negócio bão demais sô. O seus fio juntou um dinheiro e chamou nós pra levar ocê num lugá que ocê que ir muito – falou Índio, o amigo da família, em um português de dar inveja.

– Que lugá rapaiz… desembucha caraio! – replicou Zé, educadamente.

Klinger, um dos genros, levantou da cadeira e emendou:

– No Mato Grosso ômi de Deus! Seus filhos me chamaram aqui pra levá o senhô no Mato Grosso agora no fim do meis sô!

Emocionado, Zé mudou a feição e de súbito pô-se a chorar. Era uma manteiga derretida. Chorava por tudo, desde de filme de sessão da tarde até enterro de famoso. Os filhos abraçaram-no e ele mal conseguia agradecer. Chamou a Cida de novo e mandou-a fritar, à palito, toda a carne que trouxera; e também pediu que ela trouxesse a já famosa pinga amarela, envelhecida no carvalho, para comemorar.

Os próximos dias foram de pura alegria. Zé estava radiante. Preparou tudo com muito cuidado. A espingarda, as munições e Nilo, o cachorro, que não poderia deixar de levar ao seu destino sonhado. Zé dizia que o Nilo também sonhava com o Mato Grosso, mas isso ninguém teve coragem de confirmar. Levou a Dorotéia, a caminhoneta D-10 branca para uma rápida revisão. “Cobra”, o mecânico de confiança, mexeu de cima em baixo na velhinha e deu o veredicto:

– Já dá pra ir e vortar ali em Cruzília sem susto sô Zé! Agora num passa de 80 senão fica perigoso – advertiu.

– Ah vai catar coquinho Cobra! Cê num entende nada de caminhoneta… só sabe mexer em fusca! – respondeu Zé, ignorando o sábio conselho do amigo.

Zé encheu o tanque e carregou a Dorotéia de tranqueira.  Entregou-a para Gancho, um dos genros, que quase sempre posava de motorista. Atrás da caminhoneta, mais dois carros, um deles com uma carroceria-freezer; outro um caminhãozinho que levava as tralhas mais pesadas. Lá se foram, felizes da vida, enfrentando 1200 km a 80 por hora! 

Logo na saída da cidade um susto que poderia interromper o sonho: uma “blitz” da polícia rodoviária federal. O tão sonhado Mato Grosso estava ameaçado. O guarda, um magrelo alto, deu logo sinal para eles encostarem. Gancho parou a Dorotéia e Zé pediu que deixassem ele conversar com os “zômi”.

– Bom dia senhor! Documentos e habilitação – solicitou o policial.

– Bom dia. A carteira tá aqui mas o documento nóis num tem faz uns dez anu. É só pra ir na roça i vortá que eu uso ela. Quebra essa pra nóis! – mandou Zé rezando para o homem engolir.

– Meu senhor, lei é lei. Por favor, acenda o farol – demandou.

– Só o direito que tá com um probleminha moço – retrucou Zé.

– Liga as setas pra “mim” ver então!

– Seta tá faindo, mas de vez em quando péga as duas junta!

– Luz de freio?

– Só pisca uma vez e apaga – completou Zé.

– Não consigo ler a tara e lotação do veículo!

– O Vadio arranhou com o chifre – retrucou Zé.

– Quem é vadio? – perguntou o policial.

– Meu toro de rodeio ué! – respondeu Zé, como se todos conhecessem o animal.

– Meu senhor, vamos fazer o seguinte: – Eu sou muito bonzinho, se eu for multar o senhor vô tê que levá a caminhoneta guinchada e pelo jeito o senhô num vai tê nem como pagá. Sômi na estrada e vai pra sua roça e evita andá por aqui – finalizou o guarda balançando a cabeça negativamente.

– Brigadão seu guarda! O senhô é um hômi bom mêmo! Agora, faz favor pra nóis, ajuda a empurrá a Dorotéia que ela tamém num tem partida!

-*-*-*-

Mil e duzentos quilômetros! E a Dorotéia sem passar dos 80 por hora! Cinco dias depois, eles chegaram em Campo Grande para encontrar um homem e pegar com ele as coordenadas do destino. Klinger, que era casado com a filha do meio, havia feito o contato, anteriormente. Para agradar o tal contato, trouxeram de Minas os famosos queijos, doces e a tal da pinga amarela. Entregues os presentes, partiram com um mapa improvisado e uma promessa de um local perfeito para a pescaria. Teriam que parar na ponte do rio negrinho, a mais ou menos 50 km de Campo Grande. Após a tal ponte, deveriam virar à direita e entrar na estradinha, até a fazenda da onça. Lá, iriam acampar e pescar sem serem incomodados e sob a proteção do dono das terras.

Gancho seguiu as instruções e passou a primeira porteira. Já era noite e eles procuravam alguma casa para se localizarem. Meio perdido, ele pediu para a caravana parar e perguntou ao Klinger se ele não queria pernoitar ali mesmo, ao invés de continuar procurando a tal fazenda da onça. Gancho era casado com a filha mais velha de Zé; ganhara o apelido depois de perder três dedos da mão direita em uma máquina de cortar madeira. De cada cinco palavras que dizia, seis eram palavrões.

– Vai a puta que pariu Klinge! Porquê ocê num espera amanhã pra ver isso! Vai tomar no seu cú! Já tá de noite e vai que tem onça mêmo nessa merda de fazenda da onça carai!

– Carma rapaiz… quando nóis achá a fazenda nóis aporta e monta as barraca. Depois que ligá o geradô e o baruio afasta os bicho – respondeu Índio, já fora do carro, com autoridade no assunto.

Ânimos acalmados, lá se foram Klinger e Índio armados com uma lanterna pequena. Gancho desceu do carro já com o 38 na mão; àquela que ainda tinha cinco dedos.

Klinger e Índio andaram por alguns minutos e chegaram a uma casinha, a qual batia com a descrição do mapa. De longe ouviram um grito:

– Para por aí ou leva bala! – bradava uma voz grossa e ríspida vindo da escuridão.

Os dois tremeram nas pernas. Paralisados, Klinger entrou em choque e Índio apontava a lanterna para o próprio rosto.

Acendendo duas luzes de caçar capivara, revelaram-se da escuridão dois homens armados com espingarda.  Cada um deles segurava um cachorro fila babando e rosnando na coleira. Era daqueles cachorros fila rajados, que levam uma coça de manhã e são alimentados com sangue à tarde só para ficarem mais bravos… os homens, sem querer saber de nada mais, disseram:

– Saiam daqui agora e nunca mais passem pro lado de cá dessa porteira. Aqui é a fazenda da onça, do deputado Furto Nato. É propriedade privada – falou um dos homens, grosseiramente.

– Mas nós tem permissão pra ficar aqui moço – retrucou Índio.

– Não vou avisar mais uma vez – respondeu o outro homem, engatilhando a espingarda.

– Fudeu! Vamô rachar fora fio. Desculpe então moço. Nós não vamô incomodar mais não – respondeu Klinger, puxando Índio para ir embora e xingando os dois homens baixinho – vão chupar prego seus fio duma égua!

Na estradinha de volta, pensavam na desculpa que iam dar para dizer a Zé, que não poderiam acampar na fazenda. Chegando na ponte, Klinger chamou o Zé e disse:

– Tudo certo sô Zé! Nós vamos acampar aqui ao lado da ponte e ele disse que podemos pescá trankilo aqui no rio negrinho. Mas não convém passar da porteira por que u hômi disse que lá eles num pódi garanti a nossa segurança – falou piscando para o Índio.

– Quase tomaru chumbo no lombo daqueis fio de uma puta lá – falou Gancho baixinho.

Zé não se importou. Estava no mato Grosso, era o sonho realizado. Desmontaram as barracas, montaram o gerador e fizeram uma fogueira para assar uma carne que trouxeram na caixa de isopor. Dormiram felizes, a não ser Klinger  e Índio que tiveram pesadelos com os capangas da fazenda da onça.

Amanheceu no acampamento e de repente ouviu-se um tiro. Klinger, Gancho e Índio deixaram as barracas e percebem que apenas o seu Zé estava faltando. Preocupados começaram a deliberar sobre uma possível busca pelo dito cujo, quando surgem, do meio da mata, Nilo e o Zé. Na penumbra da manhã, demoraram a entender a situação. Sorrindo como uma criança, Zé trazia a espingarda Winchester numa mão e puxava uma corda com a outra, quando exclamou:

– Eu sabia que aqui era o paraíso! Esquece Minas pessoal, olha o tamanho das codorna daqui! Matei só uma e dá pra todo mundo comê!

O acampamento inteiro caiu na gargalhada e até hoje na cidade tem gente que passa na frente do açougue e grita:

– Ô Zé da ema!!!

E Zé, naturalmente, devolve a gentileza: – Ema é a sua mãe!

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Luciano Gouvea

Autor de Shekinah e Coração Tuaregue

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